O que muda quando a agência opera na Argentina

Até certo ponto, escolher software para uma agência de viagens é igual em qualquer lugar: catálogo, reservas, orçamentos, alguns relatórios. Depois aparece o que é daqui.

Duas moedas na mesma venda. Parcelas. Um faturamento que depende de um órgão público que em alguns dias não responde. E a agência que compra hoje, opera semana que vem e paga no fim do mês. Nada disso é exótico para quem trabalha com receptivo na Argentina: é uma terça-feira. Um sistema de gestão pensado para outro mercado resolve metade, e essa metade termina em planilhas.

Duas moedas na mesma reserva

A navegação até a Isla Victoria é liquidada em dólares. A van e o guia são pagos em pesos. O passageiro paga como pode. Isso não é um caso limite: é um orçamento qualquer de Bariloche.

Um sistema de uma moeda só deixa você escolher entre dois jeitos de perder. Cadastra tudo em pesos e a margem do que se paga em dólares se move com o câmbio entre a venda e a operação. Ou cadastra tudo em dólares e alguém converte na mão, orçamento por orçamento, com a cotação do dia que for.

O que pedir na demonstração: cada produto com a sua moeda, um orçamento com um total por moeda e nenhum total que some as duas, e caixa e saldos separados. E onde não houver uma cotação cadastrada por uma pessoa, que o sistema não invente nenhuma.

Cobrar parcelado, por transferência ou do Brasil

Aqui a forma de pagamento decide se a venda fecha, e nunca é uma só. O casal de Rosario pergunta por parcelas. A família de São Paulo quer pagar pelo app do banco. O alemão saca o cartão internacional sem perguntar nada. E sempre tem alguém que deixa sinal e paga o resto em dinheiro ao subir na van.

Três coisas para olhar de perto:

  • As parcelas alguém paga. O acréscimo do financiamento ou está no preço, ou sai da sua margem. O sistema tem que mostrá-lo na hora de cobrar, não no relatório de fim de mês, quando já não dá para fazer nada.
  • Um comprovante de transferência é um arquivo, não um pagamento. O sistema pode revisá-lo e sinalizar o que não fecha, mas quem confirma é alguém da agência. O resto é confiar em um JPG.
  • A cobrança é da reserva. Um link de pagamento enviado por fora deixa a reserva sem saber que recebeu, e essa reserva aparece em aberto na planilha do dia.

Comprovantes, e o sábado em que o fisco não responde

A nota fiscal eletrônica depende de um serviço do Estado que às vezes cai. O que não pode cair junto é a sua venda.

Um sistema que presta emite o comprovante com numeração própria, lança no livro de vendas com os impostos discriminados e deixa o trâmite fiscal pendente até o órgão voltar. Isso não é remendo: é o que permite seguir vendendo às dez da manhã de um sábado, que é justamente quando não há para quem ligar.

Dois detalhes que parecem pequenos e aparecem numa revisão. Primeiro, a alíquota depende do produto e de quem compra: a mesma excursão vendida a um estrangeiro nem sempre leva o mesmo que vendida a um residente. Segundo, o comprovante tem que ficar preso à reserva que o originou; guardado em outra pasta, reconstruir uma venda de oito meses atrás custa uma tarde.

Conta corrente: aqui o crédito é uma forma de vender

Vender para outra agência é vender a prazo. Ela reserva hoje, opera semana que vem, paga no fim do mês. Enquanto isso, essa dívida mora em algum lugar.

Se mora numa planilha, acontece o de sempre: ela é atualizada no fim do dia, duas pessoas editam ao mesmo tempo, e na hora de fechar a reserva ninguém sabe quanto aquela agência deve. Peça que a conta corrente seja parte do sistema de reservas, não um anexo: cada reserva lançada sozinha, um limite de crédito capaz de frear a próxima, e saldos por moeda.

Contas correntes de agências compradoras: o que cada uma deve em pesos e em dólares separadamente, com o limite de crédito consumido.
O que cada agência deve, por moeda, com seu limite de crédito. Agência fictícia, dados de exemplo.

O que vale aqui e em qualquer lugar

As quatro de cima são as argentinas. Há outras três sem nacionalidade e que, se falharem, fazem o resto dar no mesmo.

A vaga baixa quando se vende, não quando alguém atualiza a planilha. Venha do site, do balcão, de uma mensagem ou de outra agência: se a baixa chega no fim do dia, a sobrevenda é questão de alta temporada.

O orçamento precisa poder ser aceito sozinho. Se vai em PDF e o cliente responde "pode ser" por mensagem, alguém cadastra duas vezes, e na segunda erra uma data.

A margem sai do sistema ou não sai. Com o custo do fornecedor cadastrado ao lado do produto, cada venda mostra o que deixa. E se falta esse custo em um produto, a margem tem que dizer que é desconhecida: um zero ali se lê como "não ganho nada", e é mentira.

Tabela de rentabilidade por produto: preço de venda, custo do fornecedor e margem de cada excursão, na sua moeda.
A margem por produto, com o custo do fornecedor cadastrado. Agência fictícia, dados de exemplo.

E o software grátis?

Quase toda agência começa de graça, e está certo: planilha compartilhada, um calendário, o grupo de mensagens. Isso aguenta até um ponto bem identificável, e o ponto chega sempre na mesma semana do ano.

É quando duas pessoas vendem a mesma saída no mesmo dia. Ali não falta uma função: falta que a vaga seja uma só para todos os canais. O mesmo com a conta corrente: uma planilha de dívidas funciona com três agências compradoras e vira problema com dez, porque ninguém sabe o saldo na hora de dizer sim.

As ferramentas gratuitas não são o erro. O erro é descobrir o limite num sábado de janeiro, com duas famílias na porta e um lugar só.

Cinco testes para a demonstração

Uma demonstração serve quando roda com o seu catálogo e com coisas que se mostram, não que se explicam. Estes cinco separam rápido:

  1. Cadastre uma excursão que você vende em dólares e outra em pesos, e monte um orçamento com as duas. Saem dois totais ou um?
  2. Venda a mesma saída de dois lugares ao mesmo tempo. A vaga baixa nos dois, na hora?
  3. Receba um sinal por link de pagamento e o saldo por transferência. A reserva mostra o recebido e o que falta, por moeda?
  4. Cadastre uma agência compradora com limite de crédito e faça-a reservar até passar do limite. A reserva trava sozinha?
  5. Emita um comprovante e pergunte o que acontece se o fisco não responder. Se a resposta for "espera-se", quem vai esperar num sábado é você.

Quando um sistema de fora basta

Se a agência vende em uma moeda só, cobra por um meio só, não vende para outras agências e fatura por fora do sistema, um software internacional pode bastar e sobrar. Dizer isso não nos convém, mas é assim.

O ponto em que deixa de bastar também é reconhecível, e costuma chegar tudo junto: a primeira venda em dólares, a primeira agência pedindo prazo, o primeiro brasileiro que quer pagar pelo banco dele. Aí aparece a primeira planilha paralela. E uma planilha paralela é um sistema que ninguém escolheu e que todos acabam usando.